19 junho 2005
Saúde Oral - Recortes da imprensa (2)
Jornal do Centro de 17/06/2005

Também no mesmo jornal:
Passam poucos minutos das 14h00. Um autocarro da Câmara Municipal de Mangualde estaciona junto à Clínica de Medicina Dentária da Universidade Católica em Viseu. Ali, larga perto de 30crianças das escolas do primeiro ciclo de Mangualde, que dentro de minutos vão ser rastreados por estudantes dos quarto e quinto anos do Curso de Medicina Dentária, e , sem demoras, manda entrar um grupo de estudantes acompanhados do professor Acácio Jorge (coordenador do Programa de Saúde Oral Autárquica), para os levar `escola do 1º Ciclo do Ex-Colégio de Mangualde, onde vão rastrear mais de uma centena de crianças, nas salas de aula, aluno por aluno, dente por dente, cada equipa de dois futuros médicos dentários deita mãos à boca. Enquanto um analisa a boca da criança, outro faz o respectivo registo. "Observamos um a um, anotamos se é de leite, se está cariado, ou se está são" — explicam. No final, é oferecida uma escova de dentes a cada criança. Ao mesmo tempo, na clínica de medicina dentária, o grupo de crianças, mais pequeno, é rastreado e assiste a uma sessão de ensino de técnicas: conhecer os alimentos que fazem mal aos dentes,
saber lavar os dentes, os gestos na lavagem, a frequência... “só o facto de se poderem observar uns aos outros é muito bom”, sublinha o professor Acácio Jorge.
Foi assim desde o início de Março. Sempre às segundas-feiras, este ritual repetiu-se até à passada segunda-feira, dia 13, em que terminou o calendário estabelecido para o ano lectivo de 2004/2005, apesar de decorrer ainda, no próximo dia 20, uma sessão em atraso na clínica dentária.
"Bocas desgraçadas"

Os dados recolhidos nas escolas e na clínica vão agora ser introduzidos numa base de dados para se proceder a uma análise epidemiológica, ou seja, para se ficar a saber qual é o estado concreto da saúde oral das crianças. Mas, de acordo com Acácio Jorge, nesta altura já é possível fazer uma "análise imediata" e as conclusões são "assustadoras". Num universo de 920 crianças observadas, perto de 80% têm cáries, cerca de 12 por cento têm os dentes quase todos mal e, apenas 10 por cento das crianças apresentam "cárie zero" (crianças com bocas sãs). "Se calhar a mensagem ainda não passou", reconhece Acácio Jorge. Para o professor, o problema em Portugal tem várias causas. Por um lado, as famílias não estão sensibilizadas para o problema e, por outro lado, o facto de a educação para a saúde oral ser uma actividade extra-escolar, quando deveria ser parte integrante das escolas portuguesas. "Muitas crianças têm necessidade de fazer a sua refeição na escola, lavam os dentes a seguir? Não. E porque não? Não são precisas grandes condições, o que é preciso é uma atitude aberta". As palavras do professor de saúde oral fazem imaginar uma escola com 50 crianças na casa de banho à espera de lavarem os dentes, algo impraticável, mas a resposta é imediata: "Se tivermos uma zona do recreio, abrigada, onde fique o tal escovódromo que nós vamos apontando como solução, já permitia que todos lavassem os dentes no intervalo e penso que há condições mínimas para o fazer".
Uma ideia que a maioria dos professores receiam ter pernas para andar. Teresa Soares, professora e assessora da Escola do Primeiro Ciclo do Ex-colégio, confessa ter sido das melhores iniciativas desenvolvidas nas escolas do concelho de Mangualde, resta agora sensibilizar os pais e instituições, porque "as escolas não tem condições" para pôr as crianças a lavar os dentes. "Do universo de meninos analisados, dois terços têm pais preocupados e que os levariam ao dentista. Mas, por exemplo, a maioria destas crianças almoça em instituições e, em sítio nenhum, lavam os dentes à hora do almoço" -lembra.
O objectivo do programa "Dente Limpo, Dente Lindo" passa "fundamentalmente por educar", no sentido de motivar os pais. Os resultados da primeira fase do projecto são animadores. Acácio Jorge considera "a experiência de Mangualde a mais bem sucedida", depois já ter realizado o trabalho de campo com alunos seus em Gaia, em Espinho e no Funchal. "A participação foi crescendo e o interesse das pessoas veio a apurar-se".
Prioridade "absoluta" às bocas sãs
O Serviço de Medicina Dentária Preventiva de Mangualde, projecto inédito no país, decorre ao abrigo de um protocolo assinado entre a Câmara e a Associação Portuguesa de Saúde Oral (APSO), com a colaboração do departamento de medicina dentária preventiva e saúde oral comunitária da Universidade Católica.
O projecto, financiado pela autarquia em 25 mil euros, pretende promover, ao longo de dois anos, a saúde oral de todos os munícipes, através da concretização de um conjunto de programas dedicados a cada uma das faixas etárias da população de Mangualde. Na primeira fase do projecto, que agora termina, foi feita uma triagem à população estudantil do primeiro ciclo. "Este ano vamos ter um levantamento muito certinho do estado de saúde oral, em termos de cáries, de todas as crianças inscritas no primeiro ciclo em Mangualde", explica o presidente da APSO, António Larcher.
Em 2006, o programa vai dar continuação ao rastreio a decorrer na clínica universitária da Universidade Católica de Viseu e estender a iniciativa aos idosos, ao apoio materno-infantil e a crianças a necessitar de cuidados especial, mas vai também entrar na chamada fase de tratamento. E é aqui que o serviço adopta algumas inovações.
Acácio Jorge, professor de medicina oral preventiva na Universidade do Porto e na Universidade Católica, explica que é nas "bocas intactas" que o programa vai dar "prioridade absoluta" para impedir, futuramente, o aparecimento das cáries. António Larcher acrescenta que o problema na saúde oral em Portugal se combate desta maneira. "Vamos ter mães com um filho de dez anos cheio de dor de dentes e um filho de seis anos que não tem dor, o qual vamos tratar. E elas [mães] dizem assim: «vocês o que querem é ganhar dinheiro com o que não tem nada para fazer». O grande problema é que, se fizéssemos o tratamento com aquela criança de dez anos, perdíamos a oportunidade de impedir cáries em dez outras crianças". O plano compromete-se depois a tratar "a sério" a percentagem de 12 por cento de crianças com os dentes quase todos em mau estado.
Dentista de Família

A prevenção no projecto de saúde oral em Mangualde, passa por adoptar a figura de "Dentistas de Família": todas as crianças que vão entrar no ensino primário, no próximo ano lectivo, vão poder escolher o seu dentista que "será o garante que aquela boca não vai ter cáries. Para tal, a criança vai poder ir a duas consultas por ano, a um preço reduzido, comprometendo-se a autarquia a suportar as diferenças. "O programa é para todos, deve-se é rentabilizar a aplicação das verbas" - conclui António Larcher.
O presidente da Câmara de Mangualde, Soares Marques, acrescenta que o valor a pagar por cada criança será avaliado em função do rendimento do agregado familiar, um trabalho realizado em conjunto com as escolas. Às crianças oriundas de famílias com dificuldades económicas, Soares Marques garante o pagamento das despesas.
Autarquias desinteressadas
O projecto de Mangualde nasceu com o Congresso de Saúde Oral, realizado em Viseu, em 2002, pela Associação Portuguesa de Saúde Oral (APSO). Durante o encontro foi apresentado o Projecto de Saúde Oral Autárquico, acompanhado de uma acção de motivação dos políticos.
Três anos depois, o presidente da APSO, António Larcher, lamenta o desinteresse das autarquias em matéria de saúde oral. "Foram convidadas todas as câmaras do distrito a estarem presentes mas, infelizmente, estiveram apenas duas. Viseu, não podia deixar de ser. E Mangualde. Mangualde interessou-se, Viseu, pura e simplesmente não quis", recorda.
Acácio Jorge, professor de medicina oral preventiva, acredita que as autarquias "têm medo" devido ao estigma instalado em Portugal em torno do médico dentista: "O médico dentista é coisa de luxo, o que é um disparate, mas existe e às autarquias que têm dificuldades financeiras, custa-lhes acreditar que isto seja uma acção social". O professor lembra que há países "que já aprenderam há muito tempo" que fazer este tipo de programas é "cativar os votos das famílias".
Embora se recuse a ver a medida nessa perspectiva eleitoralista, o autarca de Mangualde, Soares Marques, considera que "as autarquias não podem lavar as mãos", de um problema para o qual as famílias "se demitem" e as escolas não actuam por "não ter meios financeiros". Soares Marques avalia a saúde oral no seu concelho como "um problema gravíssimo" e acredita que a experiência da APSO vai ajudar a "melhorar" a situação.

Também no mesmo jornal:
Passam poucos minutos das 14h00. Um autocarro da Câmara Municipal de Mangualde estaciona junto à Clínica de Medicina Dentária da Universidade Católica em Viseu. Ali, larga perto de 30crianças das escolas do primeiro ciclo de Mangualde, que dentro de minutos vão ser rastreados por estudantes dos quarto e quinto anos do Curso de Medicina Dentária, e , sem demoras, manda entrar um grupo de estudantes acompanhados do professor Acácio Jorge (coordenador do Programa de Saúde Oral Autárquica), para os levar `escola do 1º Ciclo do Ex-Colégio de Mangualde, onde vão rastrear mais de uma centena de crianças, nas salas de aula, aluno por aluno, dente por dente, cada equipa de dois futuros médicos dentários deita mãos à boca. Enquanto um analisa a boca da criança, outro faz o respectivo registo. "Observamos um a um, anotamos se é de leite, se está cariado, ou se está são" — explicam. No final, é oferecida uma escova de dentes a cada criança. Ao mesmo tempo, na clínica de medicina dentária, o grupo de crianças, mais pequeno, é rastreado e assiste a uma sessão de ensino de técnicas: conhecer os alimentos que fazem mal aos dentes,
saber lavar os dentes, os gestos na lavagem, a frequência... “só o facto de se poderem observar uns aos outros é muito bom”, sublinha o professor Acácio Jorge.
Foi assim desde o início de Março. Sempre às segundas-feiras, este ritual repetiu-se até à passada segunda-feira, dia 13, em que terminou o calendário estabelecido para o ano lectivo de 2004/2005, apesar de decorrer ainda, no próximo dia 20, uma sessão em atraso na clínica dentária.
"Bocas desgraçadas"

Os dados recolhidos nas escolas e na clínica vão agora ser introduzidos numa base de dados para se proceder a uma análise epidemiológica, ou seja, para se ficar a saber qual é o estado concreto da saúde oral das crianças. Mas, de acordo com Acácio Jorge, nesta altura já é possível fazer uma "análise imediata" e as conclusões são "assustadoras". Num universo de 920 crianças observadas, perto de 80% têm cáries, cerca de 12 por cento têm os dentes quase todos mal e, apenas 10 por cento das crianças apresentam "cárie zero" (crianças com bocas sãs). "Se calhar a mensagem ainda não passou", reconhece Acácio Jorge. Para o professor, o problema em Portugal tem várias causas. Por um lado, as famílias não estão sensibilizadas para o problema e, por outro lado, o facto de a educação para a saúde oral ser uma actividade extra-escolar, quando deveria ser parte integrante das escolas portuguesas. "Muitas crianças têm necessidade de fazer a sua refeição na escola, lavam os dentes a seguir? Não. E porque não? Não são precisas grandes condições, o que é preciso é uma atitude aberta". As palavras do professor de saúde oral fazem imaginar uma escola com 50 crianças na casa de banho à espera de lavarem os dentes, algo impraticável, mas a resposta é imediata: "Se tivermos uma zona do recreio, abrigada, onde fique o tal escovódromo que nós vamos apontando como solução, já permitia que todos lavassem os dentes no intervalo e penso que há condições mínimas para o fazer".
Uma ideia que a maioria dos professores receiam ter pernas para andar. Teresa Soares, professora e assessora da Escola do Primeiro Ciclo do Ex-colégio, confessa ter sido das melhores iniciativas desenvolvidas nas escolas do concelho de Mangualde, resta agora sensibilizar os pais e instituições, porque "as escolas não tem condições" para pôr as crianças a lavar os dentes. "Do universo de meninos analisados, dois terços têm pais preocupados e que os levariam ao dentista. Mas, por exemplo, a maioria destas crianças almoça em instituições e, em sítio nenhum, lavam os dentes à hora do almoço" -lembra.
O objectivo do programa "Dente Limpo, Dente Lindo" passa "fundamentalmente por educar", no sentido de motivar os pais. Os resultados da primeira fase do projecto são animadores. Acácio Jorge considera "a experiência de Mangualde a mais bem sucedida", depois já ter realizado o trabalho de campo com alunos seus em Gaia, em Espinho e no Funchal. "A participação foi crescendo e o interesse das pessoas veio a apurar-se".
Prioridade "absoluta" às bocas sãs
O Serviço de Medicina Dentária Preventiva de Mangualde, projecto inédito no país, decorre ao abrigo de um protocolo assinado entre a Câmara e a Associação Portuguesa de Saúde Oral (APSO), com a colaboração do departamento de medicina dentária preventiva e saúde oral comunitária da Universidade Católica.
O projecto, financiado pela autarquia em 25 mil euros, pretende promover, ao longo de dois anos, a saúde oral de todos os munícipes, através da concretização de um conjunto de programas dedicados a cada uma das faixas etárias da população de Mangualde. Na primeira fase do projecto, que agora termina, foi feita uma triagem à população estudantil do primeiro ciclo. "Este ano vamos ter um levantamento muito certinho do estado de saúde oral, em termos de cáries, de todas as crianças inscritas no primeiro ciclo em Mangualde", explica o presidente da APSO, António Larcher.
Em 2006, o programa vai dar continuação ao rastreio a decorrer na clínica universitária da Universidade Católica de Viseu e estender a iniciativa aos idosos, ao apoio materno-infantil e a crianças a necessitar de cuidados especial, mas vai também entrar na chamada fase de tratamento. E é aqui que o serviço adopta algumas inovações.
Acácio Jorge, professor de medicina oral preventiva na Universidade do Porto e na Universidade Católica, explica que é nas "bocas intactas" que o programa vai dar "prioridade absoluta" para impedir, futuramente, o aparecimento das cáries. António Larcher acrescenta que o problema na saúde oral em Portugal se combate desta maneira. "Vamos ter mães com um filho de dez anos cheio de dor de dentes e um filho de seis anos que não tem dor, o qual vamos tratar. E elas [mães] dizem assim: «vocês o que querem é ganhar dinheiro com o que não tem nada para fazer». O grande problema é que, se fizéssemos o tratamento com aquela criança de dez anos, perdíamos a oportunidade de impedir cáries em dez outras crianças". O plano compromete-se depois a tratar "a sério" a percentagem de 12 por cento de crianças com os dentes quase todos em mau estado.
Dentista de Família

A prevenção no projecto de saúde oral em Mangualde, passa por adoptar a figura de "Dentistas de Família": todas as crianças que vão entrar no ensino primário, no próximo ano lectivo, vão poder escolher o seu dentista que "será o garante que aquela boca não vai ter cáries. Para tal, a criança vai poder ir a duas consultas por ano, a um preço reduzido, comprometendo-se a autarquia a suportar as diferenças. "O programa é para todos, deve-se é rentabilizar a aplicação das verbas" - conclui António Larcher.
O presidente da Câmara de Mangualde, Soares Marques, acrescenta que o valor a pagar por cada criança será avaliado em função do rendimento do agregado familiar, um trabalho realizado em conjunto com as escolas. Às crianças oriundas de famílias com dificuldades económicas, Soares Marques garante o pagamento das despesas.
Autarquias desinteressadas
O projecto de Mangualde nasceu com o Congresso de Saúde Oral, realizado em Viseu, em 2002, pela Associação Portuguesa de Saúde Oral (APSO). Durante o encontro foi apresentado o Projecto de Saúde Oral Autárquico, acompanhado de uma acção de motivação dos políticos.
Três anos depois, o presidente da APSO, António Larcher, lamenta o desinteresse das autarquias em matéria de saúde oral. "Foram convidadas todas as câmaras do distrito a estarem presentes mas, infelizmente, estiveram apenas duas. Viseu, não podia deixar de ser. E Mangualde. Mangualde interessou-se, Viseu, pura e simplesmente não quis", recorda.
Acácio Jorge, professor de medicina oral preventiva, acredita que as autarquias "têm medo" devido ao estigma instalado em Portugal em torno do médico dentista: "O médico dentista é coisa de luxo, o que é um disparate, mas existe e às autarquias que têm dificuldades financeiras, custa-lhes acreditar que isto seja uma acção social". O professor lembra que há países "que já aprenderam há muito tempo" que fazer este tipo de programas é "cativar os votos das famílias".
Embora se recuse a ver a medida nessa perspectiva eleitoralista, o autarca de Mangualde, Soares Marques, considera que "as autarquias não podem lavar as mãos", de um problema para o qual as famílias "se demitem" e as escolas não actuam por "não ter meios financeiros". Soares Marques avalia a saúde oral no seu concelho como "um problema gravíssimo" e acredita que a experiência da APSO vai ajudar a "melhorar" a situação.